quinta-feira, 17 de julho de 2008

Espanha culpa as petroleiras pela campanha contra o biocombustível

Madri vai adotar 5% de biocombustíveis e nega que causem carestia dos alimentos; Bruxelas estuda a redução de sua meta

A Espanha uniu-se ao Brasil e aos EUA na batalha a favor dos biocombustíveis. Contra a enxurrada de críticas que acusam o álcool fabricado de milho ou açúcar de encarecer os alimentos - discurso assumido pelas ONGs, a Agência Européia do Meio Ambiente, o FMI e o Parlamento Europeu -, o governo espanhol afirma que não são a causa principal da fome e que tudo corresponde a "uma campanha das petroleiras, que vêem seus negócios ameaçados", disse o secretário de Estado do Meio Ambiente, Josep Puxeu.

"O petróleo encarece os alimentos, já que o plantio, a colheita e o transporte estão muito ligados ao preço dos alimentos, e mata de fome. Mas, todos atacam os biocombustíveis, que representam uma porcentagem muito pequena", afirma o número 2 do ministério.

Na Espanha, os biocombustíveis representam atualmente 1,9% dos combustíveis usados no transporte. A lei obriga a chegar a 5,83% até 2010, e caso prospere a diretriz européia que está em tramitação deverá alcançar 10% em 2020. "Mantemos o objetivo legal e esperamos que Bruxelas mantenha os 10%", acrescenta Puxeu. Para isso, o governo espanhol prepara uma ordem ministerial - já enviou um rascunho para a Comissão Nacional de Energia - sobre como fazer a mistura, já que não será optativa, e sim incorporada aos combustíveis tradicionais. Assim, cada condutor abastecerá biodiesel ou etanol sem saber.

Esses biocombustíveis são obtidos do milho, da beterraba, da cana-de-açúcar ou de óleos usados e reduzem as emissões de gases do efeito estufa e a dependência do petróleo. Surgiram com uma grande esperança contra a mudança climática, mas no último ano receberam uma enxurrada de críticas e são acusados de causar o aumento do preço dos alimentos e assim de matar de fome milhões de pessoas.

O número de pessoas que passam fome no mundo aumentou 133 milhões em 2007, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA, que afirma que 849 milhões de pessoas já sofrem com a escassez. O preço do arroz subiu 70% em um ano (desde maio está baixando), o do trigo duplicou e o do milho subiu 25% em dois meses.

Bruxelas vive uma guerra aberta que recrudescerá no outono, quando se prevê que estará aprovada a diretriz que define que, em 2020, 20% da energia da UE serão renováveis e que incluem a porcentagem de 10%.

A Agência Européia do Meio Ambiente considera que não está claro que os biocombustíveis atenuem o efeito estufa, mas sim que destroem as florestas tropicais. O Fundo Monetário Internacional afirma que são os principais culpados pela carestia dos alimentos. E com eles da fome. Diante desses dados, o Reino Unido, Holanda, França e Alemanha pediram para revisar a meta de 10% e o Parlamento Europeu, em uma votação não-obrigatória, pediu à comissão que reduza a porcentagem prevista para 2020.

Puxeu relativiza: "Os alimentos subiram principalmente devido à alta contínua do petróleo e porque nos últimos anos houve muitas colheitas ruins em grandes produtores como Austrália ou Ucrânia, e ao mesmo tempo outros países limitaram a exportação. Agora as colheitas estão se recuperando, mas com o custo energético os preços continuam altos. Por isso há gente que passa fome e diante disso é preciso aumentar a ajuda aos programas da ONU, como fez a Espanha", que na cúpula da FAO em Roma em junho anunciou uma contribuição de 500 milhões de euros a mais.

Ele acrescenta: "Embora seja verdade que nos EUA muito milho vai para a produção de etanol, a verdade é que a produção aumentou tanto quanto o que é destinado ao etanol". Quer dizer, segundo Puxeu, os biocombustíveis fazem que se cultivem áreas até agora improdutivas. Nos EUA um terço do milho já é destinado ao etanol.

A Espanha tem interesse em que a aposta dê certo. Duas das grandes empresas do setor são espanholas, Abengoa e Ebro Puleva. Além disso, o país importa 83% da energia que consome e os biocombustíveis são uma das poucas fontes autóctones. Por fim, permitem manter a agricultura e recuperar cultivos como a beterraba e o girassol e manter a população rural. A UE vai retirar as ajudas à produção de biocombustíveis.

O apoio expresso - até agora a tese era que era preciso estudar - veio depois de certa discussão interna. A ex-secretária de Estado de Cooperação Leire Pajín defendia que causam fome nos países pobres, e Jesús Caldera os citou como uma das causas da crise alimentar. Mas Miguel Sebastián, Elena Espinosa, a secretária de Estado de Mudança Climática, Teresa Ribera, e Puxeu impuseram sua tese.

Os defensores dos biocombustíveis afirmam que há alimentos, como o arroz, que encarecem, mas que não servem para fabricar biocombustíveis e que isso desmonta as críticas.

Os ecologistas, até há pouco partidários dos biocombustíveis, agora pedem que a meta seja reconsiderada. "Os apoiamos, mas se não representarem mais consumo de água e se forem produzidos perto de onde se consomem", explica Ladislao Martínez, da Ecologistas em Ação, que critica que a Espanha importe etanol dos EUA, porque assim a poupança de emissões é menor.

O que todos os especialistas crêem é que no futuro os biocombustíveis terão de proceder de algas ou de resíduos orgânicos, para não interferir na alimentação. Mas ainda estamos longe disso.

Fonte: UOL/El País

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