Alguns esperavam que Ehud Goldwasser e Eldad Regev ainda estivessem vivos. Mas, na quarta-feira (16), um acordo negociado pela inteligência alemã levou o Hizbollah a entregar dois caixões com seus restos. Em troca, Israel entregou um assassino brutal - e um pouco da sua dignidade.
As esperanças eram altas. Um dia antes, Shlomo Goldwasser, pai do soldado israelense Ehud Goldwasser, ainda mantinha viva a possibilidade que seu filho, seqüestrado pela Hizbollah na fronteira libanesa há dois anos, ainda estivesse vivo.
Contudo, na quarta-feira, quando o Hizbollah cumpriu sua parte na antecipada troca de prisioneiros envolvendo Goldwasser e o outro soldado israelense abduzido em 2006, Eldad Regev, os extremistas islâmicos só puderam entregar dois caixões pretos.
Imediatamente, especialistas forenses israelenses começaram o trabalho para identificar os corpos, para se assegurarem que de fato pertenciam a Goldwasser e Regev. Quando a identidade dos restos for confirmada, Israel entregará cinco prisioneiros libaneses, inclusive Samir Kantar, que assassinou brutalmente um homem e sua filha em um ataque em 1979. Ele está em uma prisão em Israel desde então.
As famílias de Goldwasser e Regev fizeram o máximo para se manterem otimistas, mesmo quando todos os sinais apontavam na direção contrária. O Hizbollah havia ocultado todas as informações sobre o bem-estar dos soldados, mas as evidências das cenas de sua captura indicavam que tinham sido gravemente feridos. Agora, finalmente, a espera terminou para as famílias.
"É o dia mais triste para Israel. Eles nos mantiveram esperando até o último segundo para descobrirmos o destino de nossos filhos", disse uma vizinha da família de Regev, Sinoma Adda, à Associated Press antes de cair em choro.
A troca vinha sendo negociada há semanas, e o gabinete israelense finalmente deu o sinal verde na terça-feira à tarde. Eli Yishai, vice-primeiro-ministro Ehud Olmert, elogiou o acordo porque saiu "por um preço muito mais baixo do que o que foi pago no passado, com toda a dor envolvida". Em 2004, Israel entregou mais de 400 libaneses e palestinos em uma troca de prisioneiros.
Ainda assim, o Hizbollah celebrou a troca como uma vitória. De acordo com um site próximo ao Hizbollah, os prisioneiros libertados vestiriam uniformes militares assim que fossem entregues. A idéia é lembrar as pessoas que os homens são combatentes, disse o site, e que eles voltarão a seus cargos na "frente de resistência".
"Hoje é uma grande vitória para os movimentos de resistência e para o Hizbollah", disse o porta-voz do Hamas, Sami Abu Zuhri. "Demonstra que a única forma de sucesso para libertar os prisioneiros é seqüestrar soldados." Os partidários do Hizbollah montaram um palco na cidade costeira de Naqoura, com uma banda esperando para celebrar a volta dos prisioneiros.
O acordo foi mediado por um membro da agência de inteligência estrangeira da Alemanha, a Bundesnachrichtendienst (BND). Gerhard C. passou meses em operações de diplomacia delicada, viajando entre Jerusalém, Beirute, Berlim e a sede da ONU em Nova York.
Até o final, contudo, o acordo nunca estava garantido. O primeiro-ministro Olmert, mesmo debilitado por inúmeras acusações de corrupção, estava sob intensa pressão interna para não fechar o acordo. Os israelenses questionavam um acordo que desse qualquer legitimidade à milícia xiita, atualmente isolada internacionalmente.
O xeque Hassan Nasrallah, poderoso líder do Hizbollah foi quem deu a aprovação para a milícia fazer uma emboscada ao controle de fronteira israelense no dia 12 de junho de 2006 - uma medida que gerou a chamada guerra de verão entre Israel e Hizbollah. Imediatamente após o seqüestro, Olmert ordenou um ataque ao grupo extremista no Líbano para forçar a liberação de Regev e Goldwasser. A força aérea israelense bombardeou o Sul de Beirute e levou a guerra às aldeias e pequenas cidades do Sul do Líbano. Entretanto, os dois soldados continuaram desaparecidos e o Hizbollah não foi derrotada.
Muitas partes do Líbano ainda não se recuperaram desses bombardeios aéreos, e a população local ainda sofre. Nasrallah, entretanto, que vive debaixo da terra desde o início da guerra, emergiu da batalha como herói, visto como o primeiro árabe em décadas capaz de desafiar militarmente os odiados israelenses. O sucesso naquela guerra, que o Hizbollah vê como uma vitória divina, aumentou muito a posição de poder de Nasrallah.
A troca de prisioneiros bem-sucedida pode convencer os poucos no Líbano que ainda duvidam que a luta armada contra Israel é justificada. A liberação de Kantar foi a que mais atraiu a atenção. No meio da noite no dia 22 de abril de 1979, Kantar e três outros desembarcaram de um barco de borracha na costa israelense, perto da aldeia de Nahariya. Eles mataram um policial antes de invadir o apartamento de Danny Haran. Kantar levou Haran e sua filha de quatro anos para a praia e matou os dois. A mulher de Haran, Smadar, escondeu-se no apartamento com a filha de dois anos do casal. Smadar acidentalmente sufocou a criança enquanto tentava evitar que ela gritasse.
Entretanto, na mesma medida em que Kantar é odiado em Israel, ele é tido como herói no Líbano - e sua liberação agora dá a Nasrallah ainda mais autoridade. "Tenho completa confiança em Nasrallah", declarou várias vezes o irmão de Kantar, Bassam.
Outra vantagem para Nasrallah: ele não teve que fazer muito para efetuar a troca de prisioneiros. Um aspecto importante do acordo é um relatório secreto que o Hizbollah entregou a Gerhard C. da BND com detalhes sobre o destino de outro soldado israelense -Ron Arad. O piloto, que teve que abandonar seu avião enquanto bombardeava o Líbano em 1986, tornou-se um ícone em Israel da luta contra o Hizbollah. As circunstâncias e o momento de sua morte ainda não foram esclarecidos. Descobrir a verdade sobre seu destino tornou-se uma prioridade para o governo israelense, e o relatório do Hizbollah deveria ajudar a curar uma ferida israelense.
Entretanto, o relatório convoluto que os mediadores de Nasrallah entregaram ao negociador da BND há cerca de duas semanas nem merece o título de "inteligência". No curso de dezenas de páginas, o documento do Hizbollah explica que Arad estava vivo no início, mas que foi transferido várias vezes e entregue a várias milícias árabes até que, em certa altura, o perderam. O Hizbollah detalha extensivamente seus esforços para localizar o corpo - inclusive uma tentativa, com a ajuda da BND e de sondas, de localizar sua ossada no deserto. O relatório, contudo, não responde quando, onde e como ele morreu.
"O relatório é completamente inadequado" reclamou Olmert, na segunda-feira. Gerhard C. desde então entregou aos xiitas uma lista de perguntas adicionais. Ele ainda está esperando uma resposta, mas é duvidoso que forneça clareza sobre a morte de Arad.
O fato de Olmert e seu gabinete fecharem o acordo na terça-feira em grande parte pode ser atribuído à fragilidade do governo. Durante meses, o primeiro-ministro vem sofrendo investigações por corrupção, e não se passa uma semana sem que as famílias de Goldwasser e Regev não exijam que o governo negocie. Sua luta para trazer seus filhos de volta encontrou ressonância e simpatia no país. O público também ficou revoltado por Olmert ter escondido por um longo tempo as informações das famílias.
Agora, a verdade não é mais um mistério. Um retrato grande de Eldad Regev pendurado na casa de seu pai, na cidade costeira de Kiryat Motzkin, dizia: "Eldad, não o esquecemos. Estamos esperando o dia em que você voltará para casa."
Na quarta-feira, ele e Goldwasser voltaram.
Fonte: UOL/Der Spiegel
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