políticos.Nesta quinta-feira, a segunda edição do jornal Clarín trazia a manchete "Crise política: Cobos votou não e a lei fracassou".
"Quais serão as conseqüências (do voto de Cobos e das outras dissidências)? O vértice do poder foi seriamente danificado e ainda faltam mais de três anos de governo", escreveu o analista político do Clarín Eduardo van der Kooy.
Na votação no Senado, Cobos, que também é presidente da Casa, deu o voto de minerva, diante do empate de 36 votos a favor e 36 contra o projeto de lei apresentado pelo governo.
"Limite"
Segundo o analista político Joaquín Morales Solá, do jornal La Nación, Cobos "colocou um limite" numa forma de governar que tinha sido instalada no país há cinco anos, com a chegada do ex-presidente Néstor Kirchner, marido de Cristina, ao poder.
"Nesta madrugada acabou, definitivamente, uma forma de governar (com medidas unilaterais)", escreveu Solá.
"De agora em diante, uma administração frágil deverá enfrentar um destino de três anos e meio mais de vida. Poderiamos citar vários exemplos de governos que perderam no Parlamento e tiveram a normalidade. Mas a única diferença é que nenhum destes governos mandava como mandava o casal Kirchner", afirmou Solá.
De acordo com o analista político Edgardo Alfano, da emissora Todo Notícias (TN), esté "é um momento de incertezas".
"Vai ser preciso curar as feridas abertas. Fala-se, inclusive, numa crise política. Mas as pessoas estão tranqüilas nas ruas. Só querem que o país volte aos trilhos", disse Alfano.
Derrota
A votação no Senado argentino começou na quarta-feira e se estendeu por mais de 18 horas, até a madrugada desta quinta-feira.
O resultado representa a primeira derrota do "Kirchnerismo" em cinco anos.
O projeto havia sido aprovado pela Câmara dos Deputados no início do mês.
Lançada em março, a proposta de aumento de impostos provocou um longo conflito entre o governo e o setor rural, que durante 128 dias, com alguns períodos de trégua, realizou protestos.
As manifestações incluíram bloqueio de estradas e panelaços nas cidades e chegaram a provocar desabastecimento. Também motivaram a saída do ministro da Economia, Martín Lousteau, e se transformaram na maior crise enfrentada por Cristina Kirchner desde que assumiu o poder, em dezembro passado.
Renúncia
Poucas horas após a votação, o vice-presidente disse que não pretende renunciar. "Não penso em renunciar. Isso seria trair a vontade popular", afirmou.
"Um homem que não é do Partido Justicialista pode ter opinião diferente", disse Cobos, que não integra a mesma legenda que Cristina Kirchner.
"O principal é que agora podemos começar uma nova etapa no país. E espero que tenhamos maturidade democrática. Que a história me julgue", afirmou.
As declarações de Cobos levaram o líder da base governista no Senado, Miguel Pichetto, a afirmar que "a história vai julgá-lo, como ele pede, e muito mal".
Antes da votação, Pichetto havia dito a Cobos que a renúncia deveria ser sua única opção, caso votasse contra o projeto do governo.
"Nunca vi numa democracia um vice votando contra um projeto oficial. Só se ele pretende desestabilizar o governo. Por isso, um voto contrário deve levar à renúncia", disse Pichetto.
Divisão
Em um discurso na província do Chaco, Cristina Kirchner fez declarações que foram interpretadas por analistas como indiretas a Cobos.
"Escolhemos um caminho que não tem volta, o de representar os interesses dos que menos têm", disse.
"Sabemos que tivemos apoio de alguns que não são do nosso partido, e outros, que estavam conosco, nos abandonaram", afirmou. "Os que talvez não tenham entendido o que dissemos em outubro (quando foi eleita), algum dia entenderão."
A votação no Senado demonstrou, pela primeira vez, que a base governista não tem mais a homogeneidade de antes. Dos 36 votos contra o projeto, 11 eram de governistas.
Até a noite desta quinta-feira, o governo não havia se pronunciado oficialmente sobre o resultado da votação.
Tecnicamente, de acordo com parlamentares e constitucionalistas, a presidente deve oficializar que o projeto – chamado de "resolução 125" – foi rejeitado.
Segundo o constitucionalista Félix Leon, a Constituição estabelece que o projeto não pode voltar a ser debatido no mesmo ano em que foi rejeitado no Senado.
De acordo com o constitucionalista Daniel Sabsay, caso o governo insista com a idéia de aumento de impostos sobre as exportações do setor agropecuário, a Câmara dos Deputados deverá apresentar novo projeto.
"Inconstitucional"
O senador Gerardo Morales, da sigla opositora UCR, disse que o projeto, como estava, era "inconstitucional" e que o partido apelaria à Suprema Corte de Justiça caso tivesse sido aprovado.
"A Constituição é clara. O Executivo não pode definir sobre tributos. Por isso, agora também não poderia mandar novo projeto neste sentido ao Parlamento", afirmou Morales.
A expectativa é de que o governo não renove a proposta, que nasceu como uma espécie de medida provisória, antes de ser enviada ao Parlamento, no mês passado.
Os líderes das principais entidades do setor rural argentino divulgaram nesta quinta-feira um comunicado em que pedem o arquivamento do projeto.
"Pedimos ao governo que arquive de vez esse aumento que tantos estragos provocou, não só ao setor rural, mas ao país", disse Alfredo de Angeli, presidente da Federação Agrária da província de Entre Ríos.
Fonte: BBC Brasil
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