terça-feira, 15 de julho de 2008

Virando as costas para a Jihad

Cada vez mais terroristas famosos abandonam a causa. O teólogo egípcio Doutor Fadl é o mais conhecido, mas muitos outros provavelmente reconsiderarão as suas ações. Os especialistas vêem isto como uma reação atrasada aos ataques de 11 de setembro de 2001

Brita Sandberg

Noman Benotman entra em um restaurante em Park Lane, o tipo de lugar exclusivo e minimalista que atualmente é muito popular em Londres.
Indivíduos de terno conversam em voz baixa nas mesas próximas. Benotman, usando uma camisa pólo laranja e um blazer cinza, encaixa-se perfeitamente no local.

Benotman, um líbio de 41 anos, já foi jihadista. Ele lutou contra os soviéticos no Afeganistão. Foi naquela época, que alguns mais tarde veriam como uma era heróica e romantizada, que ele conheceu Osama Bin Laden.

Benotman conta que já gostou de portar um fuzil automático AK-47, e que se recorda das faces de pilotos de helicópteros soviéticos que abateu.
Depois que o exército soviético retirou-se de forma humilhante de Cabul e Kandahar, Benotman retornou à sua nativa Líbia, onde se tornou um dos líderes do Grupo Combatente Islâmico Líbio (LIFG). O grupo, que contava com centenas de membros, procurou derrubar o regime do ditador Muammar Gadafi, que, segundo eles, era corrupto e antiislâmico. Antes de 11 de setembro de 2001, Benotman era uma figura importante na expansão da rede mundial de terrorismo.

Hoje ele senta-se em um restaurante de Londres e pede um café expresso e um copo d'água a um garçom que usa um uniforme branco. Ele fala com um sotaque britânico impecável.

Simplesmente espetacular
Benotman acabe de retornar da Líbia, onde está trabalhando para o governo de Gadafi, aquele mesmo regime que, há apenas uma década, ele queria derrubar. Ele recebeu uma missão muito delicada. A sua tarefa é convencer membros encarcerados do seu ex-grupo terrorista a assinar uma espécie de tratado de paz. Benotman viajou para a Líbia 25 vezes nos últimos 16 meses, e os esforços estão tendo resultado. Ele diz que o documento que permitirá que os seus ex-camaradas sejam reintegrados à sociedade já está quase redigido, e prestes a ser assinado.

Segundo o acordo, os terroristas, muitos deles na prisão há vários anos, renunciarão à violência e ao assassinato de civis. Ele também incluirá um desmentido das recentes alegações da Al Qaeda de que o LIFG teria se juntado à organização terrorista internacional. Benotman afirma que isto não é verdade, e explica que os líbios distanciaram-se da Al Qaeda há muito tempo. A sua nova missão não tem nada de secreto. A rede de televisão árabe Al-Jazeera transmitiu recentemente uma reportagem sobre as suas viagens à Líbia. Afinal, a história da tentativa de um ex-jihadista de promover a paz é simplesmente espetacular.

"Quando li o fax pela primeira vez, achei que ele tivesse sido coagido", diz Mohammed al-Shafey, editor do jornal árabe de Londres que publicou o documento com a renúncia ao terrorismo. "Fadl era o cérebro da jihad. Somente mais tarde, quando li o seu novo livro, percebi que ele realmente falava sério". O Doutor Fadl escreveu o livro ao qual Shafey se refere, no qual explica as razões para a mudança ideológica ocorrida na sua cela de prisão, e anunciou a conclusão da obra no fax que enviou a Londres.

O Doutor Fadl não só é tido como o cérebro da Al Qaeda, mas é também considerado um dos mentores de Zawahiri. Ambos são cirurgiões que estudaram juntos na faculdade de medicina do Cairo. Zawahiri foi um dos milhares de indivíduos presos em 1981, após o assassinato do ex-presidente egípcio Anwar al-Sadat. Fadl fugiu para o Paquistão e estabeleceu-se em Peshawar, onde tratou combatentes feridos no Afeganistão.

Após cumprir a sua pena de prisão no Cairo, Zawahiri foi para Peshawar, que à época era um foco que atraía islamitas de vários países. Àquela época, ficou evidente para os dois homens que o Doutor Fadl era o intelecto superior. Dizia-se que ele tinha um conhecimento enciclopédico do Alcorão.

Em 11 de agosto de 1988, em Peshawar, Fadl e Zawahiri encontraram-se pela primeira vez com um jovem saudita chamado Osama Bin Laden e com um palestino chamado Abdullah Assam. Mais tarde os quatro fundariam a Al Qaeda, "a base", como aliança de luta contra os infiéis, o Ocidente e os Estados Unidos, após o colapso da outra superpotência mundial, a União Soviética. Bin Laden tinha dinheiro e seguidores, enquanto Fadl e Zawahiri haviam sonhado com os aspectos ideológicos da jihad.

Logo Fadl escreveu uma espécie de manual do jihadismo. Segundo o documento, a guerra santa é o estado natural do islamismo, e "a única forma de acabar com o domínio exercido pelos infiéis". Com um tal manifesto no passado de Fadl, a renúncia dele à Al Qaeda não pode ser facilmente vista como algo de insignificante.


O maior julgamento da história
O fato de um dos fundadores da rede descrever a ideologia da Al Qaeda e os ataques de 11 de setembro de 2001 como erros é um forte golpe para Bin Laden e Zawahiri. "O Doutor Fadl está questionando fundamentalmente a autoridade ideológica daquelas duas figuras", afirma Lawrence Wright, que descreve a história da Al Qaeda no seu livro, "The Looming Tower"
(algo como "A Torre que se Aproxima"). Em um artigo recente para a revista "New Yorker", Wright escreveu: "Fadl enfatizou repetidamente que é proibido matar civis - incluindo cristãos e judeus - a menos que eles estejam atacando ativamente os muçulmanos". Wright acredita que a organização terrorista enfrenta o maior desafio da sua história.

A seriedade com que Zawahiri encarou o panfleto de renúncia de Fadl é evidente na resposta de 200 páginas que ele divulgou em março deste ano, e que também foi publicada na Internet. Zawahiri escreveu que só pode imaginar que a conversa do Doutor Fadl seja obra de agências de inteligência árabes trabalhando em conjunto com a CIA, e que o documento deve ter sido redigido sob pressão.

"Se você alega que essas operações são ilegais, então isto também deve aplicar-se a todas as operações realizadas na Palestina", escreve o número dois da Al Qaeda, dirigindo-se diretamente a Fadl. Segundo Zawahiri, Fadl jamais questionou os ataques palestinos contra israelenses.

Paul Cruickshank, da Universidade de Nova York, e o especialista em terrorismo Peter Bergen passaram seis meses investigando a confusão que se formou no seio da Al Qaeda. Os dois começaram conversando com Noman Benotman e outros críticos da organização terrorista, incluindo o xeque Salman al-Oudah. No sexto aniversário dos ataques de 11 de setembro de 2001, o saudita apareceu na rede de televisão MBS para indagar publicamente a Bin Laden quantos inocentes já haviam sido mortos em nome da Al Qaeda. Oudah também perguntou como Bin Laden pretendia encarar o Todo Poderoso com centenas, ou talvez milhares, de vidas de inocentes na sua consciência.

"Al Oudah não está na prisão e nem é suspeito de ser amigo dos norte-americanos ou um instrumento do governo saudita", explica Cruickshank. Muito pelo contrário: em 2004, o xeque conclamou os iraquianos a lutarem contra os ocupantes norte-americanos no seu país.

Cruickshank acredita que, ironicamente, foi a Guerra do Iraque que fez com que as críticas latentes a Bin Laden e ao seu conceito de jihad tivessem tardado a emergir. "O que está emergindo agora estava em efervescência havia muito tempo". O fato de soldados norte-americanos estarem ocupando uma terra sagrada proporcionou a todo grande líder terrorista uma justificativa convincente para a jihad no Iraque.

Não há dúvida de que a Al Qaeda continua sendo uma organização terrorista perigosa e sem escrúpulos, ainda que tenha perdido parte da sua influência no Iraque. No Paquistão e no Afeganistão, os países nos quais se encontram as suas bases, ela está gozando de um apoio renovado. Aliada ao recém-fortalecido Taleban, a Al Qaeda está fazendo a sua parte para ameaçar seriamente os regimes em Islamabad e em Cabul. "Porém, no longo prazo, eles enfrentarão problemas como resultado do debate ideológico", afirma Peter Bergen. "Atualmente eles já estão tendo dificuldades para recrutar membros na Europa".

Usando um terno para as preces da sexta-feira
Esta mudança no clima geral que especialistas como Bergen acreditam que esteja ocorrendo na Europa é sem dúvida evidente na mesquita Al-Tawhid, em Londres. Dois dos supostos extremistas que planejaram ataques - que fracassaram - em Londres e em Glasgow no final de junho de 2007 compareciam com freqüência à mesquita. "Mas agora as pessoas estão cansadas de ver o islamismo ser constantemente igualado ao terrorismo", diz Usama Hasan, 36, o imame da mesquita.

Hoje em dia Hasan usa um terno ao liderar as preces da sexta-feira.
"Sou um muçulmano vivendo no Ocidente, e quero que todos entendam isso". Hasan é ex-combatente no Afeganistão e ex-membro de um grupo fundamentalista, e agora prega a renúncia à violência e condena o terrorismo.

"Tenho impressão que as coisas estão lentamente mudando", afirma o ex-terrorista líbio Benotman, referindo-se à pequena série de renegados famosos. Ele já foi tão conhecido entre os jihadistas que se comunicava diretamente com Bin Laden. Isso foi no verão de 2000, quando cerca de 200 pessoas, representando grupos de diversos países, reuniram-se em Kandahar. Benotman morava em uma casa de hóspedes de Bin Laden.

Os líbios, temendo retaliações contra o seu próprio país, opuseram-se à cruzada contra os Estados Unidos que foi amplamente discutida em Kandahar. Segundo Benotman, até mesmo o líder taleban Mullah Omar preferia um ataque contra Israel a uma ação contra os Estados Unidos.
"Naquela ocasião, dissemos a Bin Laden que ele não podia impor a sua estratégia a todos os árabes", recorda o líbio. "Ele respondeu que já estava em andamento uma operação que não podia mais ser cancelada, e que os combatentes já estavam prontos para agir". Bin Laden referia-se aos indivíduos que desfecharam os ataques de 11 de setembro de 2001.

Após os ataques contra os Estados Unidos, os líbios romperam com a Al Qaeda. No ano passado, vários jornais líbios publicaram a carta aberta de Benotman a Zawahiri. Nos últimos anos ele mora em Londres. Ele diz que nunca esteve preso, nem na Líbia nem em nenhum outro lugar.

A seguir, esse homem vestido com elegância, e que já foi um jihadista, sai do restaurante chique e desaparece na estação de metrô Green Park.

A Líbia não é o único local em que atualmente há iniciativas para o rompimento com a Al Qaeda e os seus fundadores. Quase sete anos após os ataques de 11 de setembro de 2001, e dez anos após Bin Laden e o segundo homem mais importante da estrutura, Ayman al-Zawahiri, terem fundado a "Frente Internacional Islâmica para a Jihad contra Judeus e Cruzados", a organização está começando a apresentar rachaduras.

Caso se imagine a Al Qaeda da forma como ela é descrita pelos especialistas - um sistema de franchises do terror com filiais em todo o mundo -, fica claro que está havendo uma rebelião por parte de vários líderes das filiais terroristas. Eles estão se distanciando dos ícones do terror, e dos seus objetivos e métodos. Até o momento, isto é, aparentemente, um processo interno, disputas entre os vários grupos que estavam incubadas há algum tempo e que agora emergem. E há poucas indicações de que existe uma conexão causal entre esse fenômeno e a guerra global contra o terrorismo liderada pelos Estados Unidos.

Dando tudo de si para matar
Especialistas em contraterrorismo da Europa e dos Estados Unidos reuniram-se em Florença em maio para discutir a situação atual. Não se sabe ao certo quantos terroristas continuam engajados na guerra contra o Ocidente. Mas a maioria dos especialistas acredita que Bin Laden ainda exerce influência direta sobre um grupo bastante diversificado de organizações terroristas, como líder simbólico e financiador de campos de treinamento e ataques desfechados em todo o mundo. E todos os presentes na conferência concordaram que Bin Laden continua determinado a dar tudo de si para matar o maior número possível de pessoas no Ocidente.

Acredita-se que a liderança da Al Qaeda ainda esteja escondida na região de fronteira montanhosa e inacessível entre o Paquistão e o Afeganistão. Da sua localização isolada, Bin Laden e Zawahiri elaboram mensagens periódicas dirigidas aos seus seguidores em todo o mundo, muitas vezes procurando retratar os dissidentes como criaturas do odiado Ocidente. O médico egípcio Zawahiri, em especial, insiste que renegados como Benotman foram pagos pelo Ocidente ou sofreram torturas até colaborarem, e que as agências ocidentais de inteligência fazem propaganda para semear divisões e incertezas entre os seus guerreiros sagrados.

Mas as mensagens de Zawahiri, divulgadas por vídeos ou pela Internet, parecem estar perdendo a eficácia.

No final de maio, o influente movimento religioso indiano Deoband lançou uma fatwa contra o terrorismo. Em uma proclamação conjunta em uma reunião em Nova Déli da qual participaram representantes das principais organizações muçulmanas do país, os grupos declararam: "É meta e objetivo do islamismo extinguir todas as formas de terrorismo e disseminar a mensagem da paz mundial. Aqueles que usam o Alcorão e os ensinamentos do profeta Maomé para justificar o terror estão simplesmente sustentando uma mentira".

O mufti supremo dos integrantes do Deoband e três enviados assinaram o documento. "Em termo de significância teológica, isso é mais ou menos o equivalente a um decreto da Corte Suprema em Washington", disse mais tarde o ativista Javed Anand. O Deoband, cujo nome é derivado de uma pequena cidade no Estado indiano de Uttar Pradesh, já inspirou e forneceu instrução religiosa a combatentes no mundo islâmico. Grupos militantes paquistaneses, jihadistas no Iraque, e até mesmo o Taleban invocaram o Deoband durante anos. Mas isso foi no passado.

Ex-militantes que renunciaram à jihad muitas vezes passam a fazer proselitismo junto aos seus ex-colegas de armas. No final de abril, um grupo de ex-membros do grupo militantes muçulmano Hizb ut-Tahrir, que foi fundado na Jordânia em 1953, e que mais tarde espalhou-se por cerca de 40 países, criou uma fundação para combater o fundamentalismo entre os muçulmanos na Europa.

Maajid Nawaz, 31, é o diretor da nova organização, conhecida como Fundação Quilliam. No passado, Nawaz ajudou a criar células terroristas secretas no Paquistão, e, mais tarde, na Dinamarca. Ele passou cinco anos em um prisão egípcia, onde voltou as costas para o islamismo radical. A fundação foi criada no Museu Britânico, e quando discursou no evento de inauguração, Nawaz usava um terno Hugo Boss bem talhado e trazia a barba bem aparada. "Eu me afastei do radicalismo porque percebi que ele é a maldição do islamismo".

"*Não excedam os limites"
Esta pequena rebelião dentro da Al Qaeda teve início em maio de 2007, na forma de um fax recebido no jornal árabe com sede em Londres, "Al-Sharq al-Awsat". Ele foi enviado por uma das autoridades mais eminentes da Al Qaeda, um homem que foi mentor de Bin Laden, antes que este se mudasse da cidade paquistanesa de Peshawar para o Afeganistão, e muito antes que ele se tornasse uma luz fulgurante no mundo muçulmano. O nome do homem é Sayyid Imam al-Sharif. Assim com Zawahiri, Sharif é um médico egípcio, e mais tarde concorreu com Zawahiri para ser o favorito de Bin Laden. Sharif é mais conhecido pelo seu nome de guerra, Doutor Fadl.

Ironicamente, o Doutor Fadl, 58, enviou o fax de uma prisão no Cairo, onde cumpria sentença de prisão perpétua desde 2004. Ele escreveu que o jihadismo é condenável e que viola os preceitos do islamismo e da lei Shariah. "Matar pessoas com base somente na nacionalidade não é algo condizente com o Alcorão, especialmente ao se considerar que as vítimas de tais atos são muitas vezes muçulmanos e não muçulmanos inocentes.
Lutem, em nome de Deus, contra aqueles que lutam contra vocês, mas não excedam os limites", escreveu o convertido Doutor Fadl.

Fonte: UOL/Der Spiegel

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