quarta-feira, 16 de julho de 2008

Proliferação nuclear: a história de três cidadãos suíços acima de qualquer suspeita

Do outro lado da linha, a voz se mostra educada, mas não deixa nenhuma esperança. "Nós nada temos a dizer. Agora não". Isso vem ocorrendo há alguns anos. Atrás dos muros da sua propriedade, na pequena cidade suíça de Haag, no vale do Reno, perto da fronteira com o Liechtenstein e a Áustria, Hedwig Tinner vem cumprindo rigorosamente a sua tarefa de rechaçar as ligações telefônicas inoportunas.

Contudo, há apenas cinco anos, Hedwig Tinner levava a existência tranqüila de uma notável da Suíça Oriental. Atualmente, ela vive mergulhada num universo mais parecido com o de um filme de espionagem, cujo enredo tem o sabor de drama familiar. Os seus dois filhos, Urs, 43 anos, e Marco, 40 anos, aguardam na prisão a convocação para comparecerem na primeira audiência do seu processo. O primeiro foi preso na Alemanha em outubro de 2004, e depois extraditado para a Suíça em maio de 2005. O segundo foi interpelado em setembro de 2005. Quanto ao seu marido, Friedrich, 72 anos, um engenheiro em mecânica, ele passou alguns meses encarcerado, até ser libertado em 2006 em razão da sua idade.

Os Tinner, o pai e os filhos, são suspeitos de terem trabalhado para a rede de contrabando nuclear liderada pelo cientista Abdul Qadeer Khan - o "pai da bomba atômica paquistanesa", que vive atualmente em residência vigiada em seu país -, e, mais particularmente entre 2001 e 2003, com o objetivo de ajudarem a Líbia a se dotar da arma atômica. Eles foram indiciados por violação da legislação sobre o material de guerra e o controle dos bens utilizáveis para fins militares, e ainda por lavagem de dinheiro.

Contudo, existem nesta história aspectos ainda mais preocupantes e obscuros. Segundo os investigadores, o trio teria conseguido apoderar-se dos planos de uma arma nuclear de nova geração, mais compacta, que poderia ser adaptada a pontas de mísseis do mesmo tipo daqueles que possuem o Irã e a Coréia do Norte. Revelado em meados de junho de 2008 por David Albright, um antigo inspetor da Agência Internacional da Energia Atômica (AIEA) que dirige atualmente o Instituto para a Ciência e a Segurança Internacional (ISIS, na sigla em inglês), este cenário vem causando calafrios entre os especialistas.

Agora, os especialistas estão tentando descobrir se esses planos chegaram a cair em outras mãos antes que as autoridades suíças os confiscassem em 2004 nos computadores dos Tinner e os destruíssem em 2007. Além do mais, um complicador maior neste caso, fontes atestam que a família colaborava com a CIA (a Agência Central de Inteligência americana), e até mesmo com outros serviços secretos.

De que maneira os Tinner, respeitáveis cidadãos do distrito de Werdenberg, no cantão de Saint Gall, se envolveram numa história tão impressionante? Durante os anos 1970, Friedrich, o pai, trabalhava na Vakuum Apparat Technik (VAT), uma companhia de alta tecnologia especializada nas técnicas de fabricação a vácuo, tal como várias outras na região, então chamada de o "vale do vazio". A VAT fabrica componentes que entram na fabricação das máquinas centrífugas. Estas máquinas podem servir para o enriquecimento do urânio e com isso permitir a fabricação de uma bomba atômica.

Em 1976, o engenheiro Tinner conhece Abdul Qadeer Khan, que está na região com o objetivo de procurar jazidas minerais. Junto com a sua mulher, este último será recebido em várias oportunidades na casa dos Tinner. Numa entrevista recente que ele concedeu à revista "NZZ am Sonntag", o doutor Khan descreve seus amigos suíços como "personalidades totalmente direitas, honestas e competentes"; para as quais ele se diz disposto "a pôr a sua mão no fogo".

Foi antes o inverso que parece ter acontecido. Em 1980, Friedrich Tinner é demitido da VAT por ter tentado vender componentes "sensíveis" para o Paquistão. Em 1981, ele funda a Cetec, uma pequena empresa familiar que mais tarde mudará de nome para PhiTec. A partir de então, em meio a um cenário de grande beleza natural, num vale, verde e ensolarado no verão e coberto de neve no inverno, onde corre o Reno, e acima do qual paira um maciço de montanhas, passam a ser fabricadas válvulas a vácuo e válvulas de descompressão. Estas pertencem à categoria dos produtos classificados como "de uso duplo", civil e militar. Alguns Estados têm grande necessidade deles para desenvolverem seus programas nucleares secretos.

Durante as suas horas de lazer, Friedrich Tinner é um cidadão modelo. Durante certo tempo, ele presidirá o comitê do Partido Radical Democrata (da direita burguesa) do distrito, além de dedicar-se a administrar a sociedade pública local que cuida do abastecimento de água e de eletricidade. Enquanto isso, a sua mulher atua como membro do conselho da Igreja reformada. Ele é também um radioamador fanático (registrado sob a matrícula HB9AAQ) que conversa com correspondentes no mundo inteiro por meio de uma imensa antena instalada sobre o teto da sua casa, o que o conduz a empreender uma expedição até o outro lado do mundo.

No final dos anos 1980, quando Urs e Marco já estão participando da empreitada familiar, começam os aborrecimentos. Em 1990, e depois em 1996, alertada pela AIEA, que detém uma lista mundial de engenheiros suspeitos, as autoridades de Berna procedem a alguns controles. Um inquérito preliminar é aberto em 1996, no momento em que a PhiTec se prepara para vender para o Iraque, por intermédio da Jordânia, válvulas destinadas à montagem de máquinas centrífugas. Friedrich Tinner consegue driblar momentaneamente as suspeitas, explicando que ele desconhecia o paradeiro final destas peças. "Nós tentaremos descobrir isso", promete o engenheiro na imprensa local.

Mas, em fevereiro de 2004, um inquérito da polícia da Malásia, conduzido a pedido da CIA e dos serviços secretos britânicos, provoca a queda dos Tinner. Exatamente um ano depois da apreensão, num porto italiano, de cinco contêineres lotados de componentes destinadas ao programa nuclear da Líbia. Essas componentes provinham de uma pequena usina malásia, a Scope, instalada a 25 quilômetros de Kuala Lumpur. O relatório das autoridades da Malásia, que ainda está disponível na Internet, explica que em 2002, Urs Tinner fora contratado como consultor técnico para a Scope, por um cidadão do Sri Lanka, Buhary Tahir, amigo do doutor Khan. Urs estava supervisionando a fabricação de componentes, entre as quais torneiras e válvulas destinadas a Trípoli. Ele havia organizado a importação de máquinas, recorrendo à ajuda do seu pai e do seu irmão. Em outubro de 2003, pouco antes da apreensão dos contêineres, ele deixa a Malásia. Ele será preso um ano mais tarde na Alemanha.

Diante de uma decisão pronunciada pela justiça suíça em outubro de 2007, que nega a sua soltura, Urs Tinner afirma ter ajudado as autoridades americanas a localizarem e desmantelarem a rede nuclear líbia, sem fornecer maiores detalhes. Segundo o inspetor David Albright, enquanto os Tinner, que foram procurados a partir de 2000 pela CIA, provavelmente colaboraram com os serviços de inteligência com informações sobre os projetos da Líbia, eles teriam decepcionado a CIA "quando omitiram revelar a existência dos planos de armas atômicas [que foram encontrados nos arquivos dos seus computadores]", considera o antigo inspetor da AIEA.

Por ser um simples aprendiz de mecânico - sendo este o seu único diploma -, Urs não tinha o perfil típico do traficante nuclear e do agente duplo da CIA, apesar da sua paixão pelos carros da Porsche e do seu apetite por dinheiro. Em meados dos anos 1990, bem que ele havia tentado emancipar-se de um pai excessivamente autoritário. Mas nada dera certo para ele.

Segundo apurou o jornal "Wirtschaft Regional" em Vaduz (a capital do Liechtenstein), ele abriu um comércio de peixes vermelhos e de animais domésticos, e então, em 1998, exilou-se em Dubai para vender refrigerantes. Foi lá que ele se encontrou com o famoso Buhary Tahir, que já colaborava com a AIEA. Quanto a Marco Tinner, que permaneceu na sombra do seu todo-poderoso pai, o seu papel permanece obscuro. Na qualidade de diretor da Traco, uma sociedade comercial instalada no mesmo edifício que a PhiTec, ele teria administrado os fluxos financeiros por intermédio de bancos do Liechtenstein.

Fonte: UOL/Le Monde

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